terça-feira, 26 de novembro de 2013

Pensamentos Pedagogicos Brasileiro



BIOGRAFIA DE MOACIR GADOTTI
É  licenciado em Pedagogia (1967) e em Filosofia (1971). Mestre em Filosofia da Educação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP, 1973), Doutor em Ciências da Educação na Universidade de Genebra (Suíça, 1977) e Livre Docente na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP, 1986). Foi professor de História e Filosofia da Educação em cursos de graduação e pós-graduação em Educação e Filosofia de diversas instituições, dentre elas a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a Universidade Estadual de Campinas e a Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Foi assessor técnico da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo (1983-1984) e Chefe de gabinete da Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura de São Paulo (1989-1990), na gestão de Paulo Freire. Atualmente é Professor Titular da Universidade de São Paulo e diretor do Instituto Paulo Freire.
Publicou vários títulos, dentre eles: Educação e poder: introdução à pedagogia do conflito; A educação contra a educação; Comunicação docente; Pedagogia da práxis; Escola cidadã; Paulo Freire - Uma biobibliografia, Pensamento Pedagógico Brasileiro, dentre outros.
PENSAMENTO PEDAGÓGICO BRASILEIRO
          Na última década, houve um considerável número de produções de obras referentes à educação brasileira. Muitas destas produções desenvolveram-se principalmente nos cursos de formação de professores, em mestrados e doutorados, com profissionais de outras áreas que foram conduzidos a pensar, refletir e debater acerca das correntes e teorias que embasam o pensamento pedagógico brasileiro. Dentre tais produções, pode-se citar a obra “Pensamento Pedagógico Brasileiro” do educador Moacir Gadotti, que possui nove capítulos onde através de uma linguagem clara, o autor traça um panorama sintético das diversas teorias e correntes que vem sendo apresentadas nas últimas décadas bem como qual o papel do educador, da escola e do processo ensino-aprendizagem neste contexto.
          Para Gadotti, apesar de muitos pensamentos apresentarem-se sob a ótica de ser progressista (que acredita ser ainda um pensamento passível de desenvolvimento) e fundamentar-se na “análise crítica do sistema capitalista” (p. 14), observa-se uma grande tendência a se trabalhar com o pensamento pedagógico passado que em muitos casos ainda embasa a educação brasileira tanto na teoria quanto na prática. Gadotti inicia por traçar uma ordem cronológica destes pensamentos e cita as contribuições de diversos estudiosos tais como: Pedro Benjamim Garcia, com a teoria da dependência e da modernização; Dermeval Saviani com as concepções humanista tradicional, moderna, analítica e dialética; Libâneo que apresenta as tendências liberais onde postula que, a escola deve prepara os alunos para o desempenho dos diversos papéis sociais e subdividem-se em: tradicional, renovada progressista, renovada, não-diretiva e tecnicista, também há as tendências progressistas que são vistas como instrumento de

luta dos professores e nelas estão a tendência libertadora defendida por Paulo Freire; a libertária por Tragtemberg e Arroyo e ainda a tendência crítico-social dos conteúdos que preconiza a primazia dos conteúdos frente às realidades sociais. São abordados também Beno Sander com a pedagogia do consenso que baseia-se na mera transmissão de conhecimento sem levar em conta as mudanças sociais que a educação pode promover, a pedagogia do conflito de Marx e Engels que propõe repensar a educação com base na dialética e crítica ao sistema educacional capitalista, expondo suas contradições.
         Nestas reflexões de Gadotti percebe-se que é necessário compreender historicamente as diversas tendências e concepções que formam o pensamento pedagógico brasileiro para questionar as práticas que estão embutidas nos contextos escolares. Um dos autores bastante referenciados nesta obra de Gadotti é Paulo Freire onde no seu segundo capítulo faz uma releitura das suas principais obras. Em Educação com prática de liberdade, Gadotti traz a preocupação de Freire com o papel político que a educação desempenha na construção de uma sociedade transformadora e para tanto, o diálogo torna-se uma ferramenta que precisa ser estabelecida em uma relação horizontal, visto que o diálogo proposto pela elite é vertical, não dá voz às classes populares. Segundo o autor, no contexto educacional a relação dialógica deve partir “sempre da realidade do educando, dos conhecimentos e da experiência dele, para construir o conhecimento novo, uma cultura vinculada aos seus interesses e não à cultura das elites” (p.33). Ainda nesta obra, são evidenciados detalhes das bases do método Paulo Freire com relação à alfabetização, onde parte-se do universo vocabular do aluno e palavras geradoras extraídas das suas vivências como forma de ensino-aprendizagem. Gadotti diz que nesta obra, Freire faz um esboço da sua pedagogia libertadora e esta é,

“(...) comprometida com a transformação social, que é, primeiramente, tomada de consciência da situação existencial e, imediatamente, práxis (ação mais reflexão) social, engajamento e autocrítica”.

                 Neste contexto educacional, Gadotti corrobora com Freire e afirma que o processo ensino-aprendizagem ocorre numa relação dialógica entre professor e aluno. Em Pedagogia do Oprimido, Gadotti evidencia as críticas de Freire à pedagogia bancária que é baseada no capitalismo e procura através dos discursos opressivos dominar os oprimidos. A concepção bancária da educação concebe o educador como detentor do saber, aquele que seleciona os conteúdos, quem dirige a palavra e os educandos como sendo aqueles que nada sabem, não pensam, não tem voz apenas escutam passivamente, são meros objetos e comparados a um banco são apenas depositários de conteúdos. Trata-se de uma educação que nega a historicidade do educando, nega a dialogicidade entre professor e aluno. A escola na concepção bancária é um espaço onde apenas a autoridade do educador e as ideais das classes dominantes prevalecem. Em contrapartida, Gadotti traz que Freire aponta para outra concepção de educação, a problematizadora que fundamenta-se “na relação dialógica-dialética entre educador e educando: ambos aprendem juntos” (p.35). Assim, diferente da concepção bancária, a concepção problematizadora da educação pauta-se no diálogo e o processo ensino-aprendizagem é uma via de mão-dupla e leva-se em conta as vivências dos educandos para elaborar as propostas educacionais através de temas geradores, temas relacionados ao cotidiano destes. A escola passa a ser um espaço de diálogo onde todos são ouvidos. Gadotti aponta para inúmeras contribuições de Freire não apenas no âmbito educacional, mas para mudanças de pensamento, um pensamento político não partidário e que afirma que falar de Freire não significa repeti-lo mecanicamente, mas sim reinventá-lo, transformar seus pensamentos em novos conhecimentos sem perder a originalidade de seus pensamentos, trata-se da busca do que Gadotti chama de “uma nova síntese” (p.44).
       No terceiro capítulo da obra Gadotti faz referência à educação como instrumento de luta popular e para tanto, vale-se das contribuições do educador popular Carlos Rodrigues Brandão que analisa com base na antropologia as práticas educacionais e acredita na educação como forma de transformação social. Segundo Gadotti, Brandão afirma que a educação popular precisa estar vinculada aos interesses das classes oprimidas e precisa estar comprometida politicamente com estes. Para Brandão a educação é um processo de humanização que ocorre em casa, nas ruas, no trabalho, na igreja e não apenas na escola. Preocupado com os conflitos políticos e pedagógicos Brandão identifica três tipos de educação: 

  •   A educação da classe: que se caracterizam as formas de reprodução dos diferentes modos de saber das classes populares;
  •  A educação popular: é um sistema de participação na formação de instrumentação nas praticas e nos movimentos populares, com a passagem do saber popular ao saber orgânico, ou seja, do saber na comunidade com o saber em classe;
  •   Educação do sistema dominante: são programas de instrumentalização e capacitação de pessoas e grupos populares, de saber tradicional para modernizado.
 
No capítulo quatro o autor traz contribuições de Rubem Alves com relação à formação de um “educador comprometido consigo mesmo e com o aluno, capaz de superar a burocratização e a uniformização a que é submetido” (p.54). Rubem Alves diz que o educador não é um mero reprodutor de discursos prontos e sim um motivador que procura despertar no aluno a consciência crítica. A escola precisa ser um espaço de redescoberta da “alegria de viver” (p.55), e espaço de diálogo, o processo ensino-aprendizagem precisa ser prazeroso, pois de acordo com o autor, “só se aprende quando se gosta, quando se ama o que se estuda” (p. 57).
        No capítulo quinto da sua obra Gadotti cita a dialética entre o afetivo e o cognitivo no processo de ensino-aprendizagem na pré-escola e traz importantes contribuições de Madalena Freire com relação à alfabetização de crianças neste segmento educacional. Madalena acredita as práticas educacionais com crianças da pré-escola devem ser pautadas na imaginação criativa do educador, pois este deve promover situações de interação natural da criança com a linguagem e não práticas mecânicas de escrita e oralidade. Crescentes estudos encontram-se em andamento com relação à pré-escola e apresentam-se como um campo que merece atenção especial, pois a sua universalização “poderá minimizar a desigualdade inicial, porém, sem extingui-la. Esta é uma luta essencialmente política que interessa a todos e não apenas aos educadores” (p.68). Assim, nesta perspectiva, a escola precisa ser crítica e criativa, e não conteudista. Precisa abarcar os temas transversais e utilizar elementos principalmente da arte-educação para fundamentar as práticas pedagógicas criativas com crianças da pré-escola. Outros pensadores da educação também são trazidos por Gadotti, tais como Carl Rogers, Piaget, Gusdorf, Ivani Fazenda e Hilton Japiassu com relação à “valorização do diálogo e da interdisciplinaridade na aquisição do saber” (p. 75).
         No capítulo sexto Gadotti, assim como outros autores, critica a escola capitalista e diz que esta é conservadora, e reproduz as ideias desta classe, sua ideologia, pois de acordo com os estudos de Freitag a escola capitalista é dicotômica e contraditória. Corroborando com as idéias de Frigotto, Gadotti diz que a especificidade da escola capitalista “situa-se na produção de um conhecimento geral, articulado com a formação especificamente profissional” (p. 91), ou seja, não há preocupação com a formação de um sujeito consciente que critique a sociedade.  Neste aspecto, a defesa por um ensino público de qualidade e políticas públicas efetivas são fatores efetivos para a democratização do ensino.
        No sétimo capítulo a "expressão Pedagogia dos conteúdos" foi proposta por José Carlos Libâneo que acredita que, para que haja uma democratização na escola pública as camadas populares deveriam ter domínio dos conhecimentos escolares. A "pedagogia dos conteúdos" tem como principal objetivo a transmissão e absorção dos conteúdos para o saber escolar. Para Libanêo, a pedagogia dos conteúdos espelha-se em uma das vertentes da "Pedagogia progressista", lateralizando-se a "pedagogia libertária" e da "pedagogia libertadora”. Para Demerval Savianni é totalmente utilitário que o educador componha um conceito educacional partindo de sua prática e que tal conceito sirva de base para a criação de um sistema educacional democrático.

         No capítulo oito a principal característica da tradição política no Brasil é que somente as classes nobres cheguem ao poder, com isso as classes menos favorecidas sempre são prejudicadas. A educação no Brasil por lei deveria ser obrigatória, gratuita e de boa qualidade (para os primeiros 08 anos iniciais), porém grande parte dessa população não possui essa escolarização dos 08 anos iniciais que atrela-se a evasão e a consequente reprovação, como
exemplo, a cada 100 alunos, apenas um chega ao nível superior. Essas ocorrências educacionais (inacessibilidade, reprovação e evasão) vedam a possibilidade de uma educação favorável ao nosso povo acessibilizando a marginalização da população, agravando a situação educacional do nosso país. Na atual conjuntura, observa-se a crescente desvalorização do profissional de educação, por isso, tanto em Gadotti, quanto em outros pensadores da educação temos a importância da formação de um educador comprometido com as mudanças sociais, mas para tanto, é necessário valorizar este profissional e oferecer condições de trabalho que viabilizem uma prática docente efetiva. O educador tem como tarefa de acordo com as palavras de Gadotti,
“(...) de criar condições objetivas que favoreçam o aparecimento de um novo tipo de pessoa: solidárias, organizadas, capazes de superar o individualismo, valor máximo da educação capitalista. No contexto da dominação política e da exploração econômica capitalista, o papel do educador revolucionário é um papel contra-hegemônico” (p. 127).
                
Assim, o trabalho do educador não se restringe a sua competência técnica, deve também pauta-se na mudança de pensamento, em um pensamento político comprometido com o coletivo. Trabalhar no coletivo significa valer-se das experiências históricas da classe trabalhadora em educação e buscar apoiar-se em teorias pedagógicas que embasem e estejam comprometidas diretamente com os seus interesses.
        Por fim no capítulo nove, Gadotti traz reflexões finais acerca do pensamento pedagógico brasileiro que ganha cada vez mais espaços nas universidades. Entretanto, ainda se percebe uma predominância tradicional e conservadora nas práticas docentes, pois trata-se de um processo histórico que requer romper com paradigmas. Assim, nesta obra Gadotti dialogou com diversos autores no que diz respeito aos pensamentos pedagógicos que embasam a prática docente. Para Gadotti, a escola precisa ser um espaço de socialização e diálogo onde diversas vozes precisam ser ouvidas. O processo ensino- aprendizagem deve ser uma “construção coletiva” (p.141), o aluno não pode ser comparado a um depositário de conteúdos descontextualizados da sua realidade. A relação professor aluno deve abrir espaço para diálogos e ser horizontal, onde de acordo com teoria dialética do conhecimento é através da prática revolucionária, do coletivo e do diálogo que se constrói o saber, um saber inacabado, social, em “formação e reformulação no próprio ato dialógico do conhecer” (p. 143).
Referência Bibliográfica:
GADOTTI, Moacir. Pensamento Pedagógico Brasileiro. 8ª edição. São Paulo: Ática, 2004. 167 p.





 Discentes: Alexandre Freitas Alves, Ana Cristina Santos Figueirêdo, Fabiana Ferreira de Oliveira, Jeane Moura Santos, Thiane Pinho Tavares de Barros.
Pólo: Iguatemi I


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